Vamos ver a coisa pelo seguinte ângulo:
Você nasce e já começa a morrer. Aliás, você já estava morto. E fica morrendo para o resto da vida. Você morre e já está vivo. Aliás, você nunca morre. Nem percebe. Quando percebe, nota duas moléculas que fazem uma terceira que só serve para virar duas, depois quatro, oito, um monte que se desmonta e se espalha. Se não percebe, você não está nem aí. Você não é expectador da sua existência. É fácil, simples. Você nem pensa no assunto. Em assunto nenhum. Pensou, dançou. Vai querer saber quem foi que deu o peteleco no brinquedo. E por quê. Aí dói. Gasta energia. Dá trabalho. Tem de juntar o que você vê aqui, ali e acolá. E fazer as coisas se encaixarem. Sem encaixe, você pensa que não pensou. E pergunta: “Cadê eu? Eu juro que estava aqui!” Só de pensar que pensou, dói. Dá uma sensação de remar contra a maré. Você arruma e desarruma. Tende à máxima avacalhação. Quer tudo organizado? Explicado? Dá canseira, mas fica uma sensação de perceber o monta-e-desmonta como se fosse auto-explicativo. E segue-se um bilionésimo de segundo de alívio. E pergunta: “Mas cadê a explicação? Mas quem quer uma explicação?” É por que é, não é? E assim vai.
extraído daqui...